domingo, 9 de setembro de 2012

Poesia 02

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond De Andrade

domingo, 2 de setembro de 2012

Poesia 01

EU ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

Carlos Drummond De Andrade

Frases 01



"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida... mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure sempre..."


Vinícius de Moraes

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Um só

Eu não sei como aconteceu, foi de repente, eu me envolvi com ela e a química foi perfeita. Era algo sobrenatural, ficava anestesiado. Ficamos um tempo juntos neste êxtase e a cada vez que nos encontrávamos, ficava com o seu cheiro. A cada noite, a cada abraço, ficava com o seu cheiro. Como começou, repentinamente acabou. Ela desapareceu, sem se despedir ou explicar. Mas nunca consegui esquecê-la. Principalmente por uma coisa que me marcou... seu cheiro. Até quando a tenho em imagens na cabeça, volta a lembrança do cheiro. O inverso também acontece, às vezes sinto um cheiro semelhante e ela surge em minha mente novamente. Seu cheiro. Todo momento ele vem como brisa. Mas certo dia, veio em mim uma sensação de iluminação, não sei ao certo, mas percebi que o seu cheiro era na verdade o meu.
 

sábado, 1 de outubro de 2011

Sylvia Robinson

Matéria publicada sábado, 01 de Outubro de 2011 no caderno C2+Música do jornal O Estado de São Paulo.

Morre a "mãe" do Hip Hop nos EUA

A cantora, compositora e produtora Sylvia Robinson morreu aos 75 anos, ontem pela manhã. Robinson era considerada a mãe do Hip Hop nos EUA por ter lançado comercialmente o primeiro grupo do gênero, em New York. Em 1979, ela e o marido, Joe Robinson, fundaram o selo Sugar Hill Records, e incentivaram três rappers, que improvisavam letras no Harlem, a gravar uma música. Ele eram o Sugar Hill Gang, e o hit Rapper's Delight ficou em 4 lugar nas paradas R&B. Já em 1982, outra banda do selo, o Grandmasterflash And The Furious Five, lançou The Message, primeiro Rap em que a letra falava sobre a vida no gueto.

domingo, 11 de setembro de 2011

Eu, dinheiro



Eu passo de mão em mão sem distinção, até com certa promiscuidade e sou cobiçado por todos. Alguns tentam fazer cópias, mas não ficam iguais. Fui criado por humanos, mas quem cuida deles sou eu. Decido quem vai viver ou não, de que modo e muitos dizem que eu trago felicidade. Eu mesmo não sei se sou feliz. Dependo dessa atração dos humanos, porque caso eles se desinteressem por mim, deixo de existir. Tenho alguns truques que os fazem dependentes. Amor bandido. Não agrado a todos, tem uns que conhecem meus artifícios e interesses. Mas estes são facilmente manipulados quando me afasto. Não gostam de mim, mas gostam menos ainda da minha falta.
Queria gostar dos humanos como eles gostam de mim. Depositam valor, me fazem sentir vivo, justificam minha existência mesmo em detrimento de suas próprias vidas. Por isso sinto a necessidade de conduzir a vida deles, em gratidão à sua devoção. Mas eu queria na verdade que nossa relação fosse gratuita.

domingo, 4 de setembro de 2011

Entre Rios


ENTRE RIOS from Caio Ferraz on Vimeo.

Este video chegou ao meu conhecimento através da Arquiteta Gabriela Ortega, Obrigado Gabi.
Através deste blog ajudo a espalhar o conteúdo. Veja abaixo Resumo retirado do próprio vídeo.

(Texto retirado do site: http://vimeo.com/14770270) Entre Rios conta de modo rápido a história de São Paulo e como essa está totalmente ligada com seus rios. Muitas vezes no dia-a-dia frenético de quem vive São Paulo eles passam desapercebidos e só se mostram quando chove e a cidade pára. Mas não sinta vergonha se você não sabe onde encontram esses rios! Não é sua culpa! Alguns foram escondidos de nossa vista e outros vemos só de passagem, mas quando o transito pára nas marginais podemos apreciar seu fedor. É triste mas a cidade está viva e ainda pode mudar!

O video foi realizado em 2009 como trabalho de conclusão de Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu e Joana Scarpelini no curso em Bacharelado em Audiovisual no SENAC-SP, mas contou com a colaboração de várias pessoas que temos muito a agradecer.

Direção:
Caio Silva Ferraz

Produção:
Joana Scarpelini

Edição:
Luana de Abreu

Animações:
Lucas Barreto
Peter Pires Kogl
Heitor Missias
Luis Augusto Corrêa
Gabriel Manussakis
Heloísa Kato
Luana Abreu

Camera:
Paulo Plá
Robert Nakabayashi
Tomas Viana
Gabriel Correia
Danilo Mantovani
Marcos Bruvic

Trilha Sonora:
Aécio de Souza
Mauricio de Oliveira
Luiz Romero Lacerda

Locução:
Caio Silva Ferraz

Edição de Som:
Aécio de Souza

Orientadores:
Nanci Barbosa
Flavio Brito

Orientador de Pesquisa:
Helena Werneck

Entrevistados:
Alexandre Delijaicov
Antônio Cláudio Moreira Lima e Moreira
Nestor Goulart Reis Filho
Odette Seabra
Marco Antonio Sávio
Mario Thadeu Leme de Barros
José Soares da Silva