Ultimamente tenho notado uma certa nostalgia no ar, principalmente na geração que nasceu sem todo o veloz avanço tecnológico atual. Esse avanço não refletiu um avanço de qualidade nas coisas que consumimos por isso considero uma nostalgia diferente. Sentimos falta da qualidade antes recebida e de um tempo que foi sumariamente subtraído. Esta geração consegue perceber com mais ênfase a mudança de estilo de vida, uma coisa totalmente imposta sem que possamos escolher. Isso é tão nítido que até os seriados e filmes abordam isso de forma satírica, mas como se fosse uma mudança natural. Logo, a nostalgia citada na verdade é uma luta para resgatar e não se deixar esquecer que a cultura não era absorvida de forma tão rápida e superficial. Sobre esta questão de qualidade, utilizarei o exemplo da transmissão televisiva do basquete da NBA.
Eu gosto bastante de assistir o basquete da NBA mas não deixo de notar a falta de cuidado e qualidade da transmissão aqui no Brasil. Deu vontade de escrever mais como um desabafo de desanimo pois sei que ninguém com poder de intervir irá ler e mesmo se isso acontecer nada irá mudar. É que também a partir desta análise, surge uma crítica a uma espécie de modo de pensar e agir na cultura brasileira de um modo geral. Nós temos uma dificuldade imensa de ouvir críticas e aprender a melhorar com elas. Em relação à transmissão, penso que a forma desqualificada também é um modelo proposital, pois também há um boicote de imagens que são enviadas pela transmissão norte-americana. Mesmo com isso, não se justificam os outros fatores, como qualidade do áudio e a execução por parte de narradores e comentaristas. Desde o fim da década de 80, onde David Stern transformou o basquete em um espetáculo de entretenimento, a busca da excelência era algo que sempre me chamou a atenção e sinto que hoje houve uma certa exacerbação neste aspecto em detrimento do esporte, onde os atletas viraram celebridades e as fofocas sobre suas vidas pessoais ficaram maiores que a apresentação do esporte em si. Mas em relação à transmissão lá nos Estados Unidos, ela continua muito boa. Aqui no Brasil, a transmissão é o oposto da busca de excelência. Um exemplo disso que me veio à cabeça, foi uma vez que um canal de TV aberta iria transmitir uma partida, informaram o horário, mas não começaram a transmissão no horário determinado e cortaram o primeiro quarto período desta partida.
Confesso notar também que a falta em ouvir críticas se deve em parte porque não sabemos criticar. Sobretudo nas redes sociais, que concentrou em sua maioria ofensas e isso gera um escudo em relação às críticas honestas e educadas.
Nos dois lados da moeda, entre criticar e ser o alvo delas, o que percebo é que somos um povo extremamente vaidoso e orgulhoso. Por isso, não quero com este texto passar uma imagem de sabedoria suprema, do tipo "eu sei e vocês não sabem", mas sim uma boa conversa, uma análise honesta colhendo críticas que não são somente minhas mas que eu vi bastante de outros espectadores, o que me fez pensar que não é implicância somente da minha cabeça, mas existe sim um problema. O propósito deste texto é ser a visão do público espectador que está recebendo um produto, mas que não está chegando com a qualidade necessária. Por consumir o basquete, o utilizarei como exemplo, mas isso está acontecendo de um modo geral com tudo, com a transmissão de outros esportes, com os demais programas de televisão, com jornais e etc.
Se caso alguma pessoa que trabalha nas transmissões se sinta ofendida, peço desculpas de antemão pois a intenção não é essa, não é pessoal. É justamente para induzir uma reflexão para a melhora do trabalho desenvolvido. Serão três aspectos abordados, a narração, os comentaristas e a parte técnica.
Começarei pelo trabalho de narração. São poucos os narradores que fazem um bom trabalho. Pode até parecer óbvio, mas um bom trabalho de narração consiste em ter uma boa voz, uma boa locução e narrar o jogo. Fazer uma boa descrição das ações dos jogadores, saber seus nomes e colocar emoção nisso. Emoção e entusiasmo. Saber colocar emoção em grandes jogadas, saber identificá-las. Também não precisam falar o tempo todo, precisam saber a hora de parar de falar e ditar um ritmo. Muitos narradores não sabendo executar esse ritmo, exaltam a si mesmos ao invés de exaltar o jogo. Outra coisa, passar emoção e entusiasmo não é o mesmo que ficar gritando o tempo todo, em qualquer jogada. O problema não é gritar em si, mas gritar em excesso o que fica extremamente artificial e insuportável. Outro ponto que acho excessivo são as brincadeiras e momentos de descontração. E novamente sublinho, é o excesso de piadas e assuntos impertinentes que incomodam. Saber dosar isso é o que faz um bom narrador. O narrador deve ter em mente que a transmissão de esporte mexe com a emoção de quem está assistindo e uma brincadeira mal colocada pode ofender uma pessoa que está com o ânimo exaltado. Neste mesmo aspecto, outra coisa que me incomoda é ficar apelidando os jogadores de maneira jocosa. O que endossa que isso não é legal, é que quando o público começa a fazer o mesmo com eles, eles ficam ofendidos. Agora falo do narrador de maneira geral, o que também acontece em outras transmissões esportivas e não somente no basquete. O narrador com muito tempo de ofício, começa a ficar de saco cheio do que tá fazendo e começa a transformar a narração em conversa de bar com o comentarista. Acho que falta honestidade intelectual de se aposentar ou mudar de profissão, pois ele fica em uma situação que já se tornou cômoda para ele mas incômoda para quem está assistindo. A última crítica que lembrei é que o narrador deve ser imparcial.
Os comentaristas são a parte mais crítica e delicada desta análise, pois ser comentarista é um trabalho que depende de uma boa relação com o narrador, depende de uma certa "química".
O problema dos comentaristas está em um descompasso entre ser um bom apresentador de televisão e conseguir expressar o que ele está sentindo sobre o jogo, suas impressões pessoais. Dentro disso entra o "timming" de saber a hora certa de falar e a hora de encerrar o comentário. Há comentaristas que tem boa visão de jogo, fazem bons comentários, mas não tem oratória, boa dicção ou boa voz. Há os que têm essas características mas não tem boa análise e não conseguem ser pontuais, estendendo o comentário de maneira prolixa. Há também aquele narcisista que fica somente falando de si. Um vício comum é ficar falando sobre as estatísticas que recebem no computador como uma mera descrição.
Um bom comentarista é o que agrega uma boa visão do que está acontecendo na partida para uma pessoa totalmente leiga ao esporte. Tecnicamente, ele não interrompe o narrador e os comentários são pontuais. Quando quer estender um comentário, o faz quando a partida está parada, o que acontece bastante em uma partida de basquete. E aqui entra uma crítica técnica em relação a transmissão em geral pois ao invés de tantos intervalos comerciais repetidos, eles poderiam utilizar alguns para trazer este tipo de conversa mais longa. Quando durante a partida, tanto o narrador ou comentarista começam a falar demais, isso cria uma distração ao foco principal que é o jogo, o que faz a pessoa que está assistindo não conseguir prestar atenção no que está vendo e nem no que está ouvindo.
Outro dia, vi um comentário em que concordei que talvez falte um trabalho de direção nos bastidores. Uma pessoa que justamente oriente a transmissão para que não seja tão anárquica e que corrija esses vícios. É importante salientar que o trabalho do narrador e do comentarista também é um trabalho inclusivo, pois existem pessoas com deficiência visual que também querem participar deste entretenimento. Um trabalho importante que deveria ser levado com mais profissionalismo.
A terceira questão é a parte técnica da transmissão e acho que também um trabalho de direção ajudaria nisso. A equalização do áudio é geralmente ruim. Às vezes o som ambiente está muito alto e o microfone dos apresentadores está baixo como o contrário também acontece, o som ambiente está abafado e o som dos apresentadores muito alto. Para somar a isso, o som dos comerciais sempre está alto e assim você precisa assistir com o controle remoto na mão para ficar aumentando e diminuindo o volume.
Em relação às imagens, acontece o que já escrevi anteriormente, há uma limitação das imagens recebidas portanto não é uma questão de correção da produção daqui do Brasil. Percebe-se esta diferença quando se assiste à transmissão americana. Nos intervalos e em alguns pedidos de tempo, há coisas acontecendo como gincanas e apresentações que são importantes para transportar quem está assistindo pela televisão para o ginásio. Isso faz com que se sinta a atmosfera local o que enriquece muito a transmissão. Outra coisa que de vez em quando é mostrada por aqui mas que também é importante e divertido são as brincadeiras com o público como por exemplo, a chamada "Dance Cam" onde a pessoa filmada se percebe no telão do ginásio e começa a dançar.
Tudo o que foi descrito parece ser um pouco de preguiça, um pouco de vício e um pouco de negligência para se entregar um bom produto. Fico pensando que seria melhor e talvez até mais barato se entregassem a transmissão original. Não seria necessário equipe de produção, estúdio e apresentadores, como eram feitas as transmissões nos primórdios da TV à cabo. Mas sei que isso não seria permitido pelos controladores, como nunca foi permitido escolher qual canal de TV à cabo você quer assinar e pagar proporcionalmente por isso.
As pessoas podem argumentar que hoje existe o aplicativo da NBA, o League-Pass, mas ele tem um preço alto e não há a possibilidade humana de se assistir a todos os jogos. Ele também poderia ter a opção de se pagar somente por partidas que se quer assistir, mas não é feito desta forma.
Enfim, as críticas expostas neste texto em relação ao produto referem-se ao que podemos melhorar sem ir a fundo nas limitações que já são impostas. Se a direção e apresentação atentassem para as críticas, o produto já melhoraria bastante, sem demonstrar essa falta de empatia e arrogância em relação ao público consumidor. Só achei importante escrever porque a transmissão está em um modo tal que faz com que eu deixe de gostar de assistir e este deve ser um sentimento não somente meu mas de muitos fãs de basquete.

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